domingo, maio 14, 2017

Assis: radicalidade


E se largarmos todos os materiais que temos, tal como S. Francisco, e experimentarmos a radicalidade dessa opção?
Havia uma barra de grafite que me tinha sido oferecida há uns anos e estava intocável. 
Parti-a às lascas e partilhei-a entre todos. 
Sujava as mãos quando se lhe pegava.
Não se conseguia agarrar em condições, sequer.

Dali partimos em grupo para desenhar o tempo romano de Minerva, hoje igreja de Santa Maria sobre Minerva.


A exploração continuava. 
Quando nos sujeitamos ao que o outro nos dá, os resultados são sempre um mistério. Raramente o que esperamos. Abrem-se novas possibilidades e o milagre de novos resultados aparecerem no caderno presta-se a acontecer...


Aos poucos, vamos integrando a surpresa da novidade. 
Espaço para o chão e para o céu. A matéria fica no meio.

Depois de o controlar, havia que dar o passo seguinte:
Serei capaz de o integrar com o que eu já sei fazer?

A inspiração vinha do milagre da multiplicação dos pães e dos peixes. 
Dificilmente as pessoas não tinham mesmo nada que comer. 
Dificilmente não ficaram sensibilizadas pela partilha inicial de Jesus e dos discípulos.
De certeza que tiraram também o farnel que tinha levado e integraram-no com as pequenas porções recebidas pelos discípulos.


Má integração a minha. Deixei o que me ofereceram para o fim...
Usei a caneta e a aguarela e depois queria colocar o grafite da lasca.
Engraçado como é muito esta a postura com a diferença na vida. Queremos os territórios seguros. Primeiro eu e depois logo se vê se há espaço para o outro...


Nova tentativa. 
Forcei-me a integrar.
Arcadas grosseiras com lascas de grafite. 
Claro-escuro. 
Sentido de liberdade.
Aguarela.
Confusão e caos.

Como é difícil integrar a novidade na nossa vida, sobretudo quando a novidade é como uma lasca de alguma coisa. Parte mal partida, sem lado bonito, sem modo de lhe pegar.

Tanto caminho pela frente...
Tanto para crescer...

6 comentários:

Alice Cardoso disse...

Excelente descrição Mário!
De facto foi muito difícil essa integração do que nos é estranho. Temos essa "miopia do olhar" que nos impede de estar abertos à novidade é nos descentramos do eu.
Assis foi uma extraordinária experiência e vivência.
Obrigada Mário!

Mário Linhares disse...

Obrigado eu! ;)

José Louro disse...

Excelente! Inspirador!

Miguel Antunes disse...


Que pensamentos tao certeiros, tao vagos aparentemente mas depois tao detalhados. Mesmo Inspirador!

Como `e sempre bom ler-te e ver os teus desenhos!!

Grande abr

Teresa disse...

Esta tua meditação sobre o que o Outro nos dá, é tão importante na vida. Gostei muito de te "ouvir", e ver os teus resultados da experiência.

Mário Linhares disse...

Obrigado.
Os desenhos levam-nos para territórios inimagináveis...