segunda-feira, maio 15, 2017

Assis: San Damiano

«Olha, filho, a mim também me parece duro em demasia o vosso viver sem nada possuir”» 
- Desabafou o bispo Guido a S. Francisco de Assis.


Saímos apenas de caderno na mão.
O objectivo era mendigar uma caneta, lápis ou outro material qualquer.
Pedir, mendigar, assumir que algo nos falta...
A referência era fortíssima: S. Francisco chamava a si a tarefa de mendigar comida. Quando ninguém lha dava dizia: "Terei o privilégio de jejuar".

"Que loucura!" - pensava eu enquanto lia a biografia dele. Como pode isto influenciar a preparação de exercícios de desenho?

Pedir custa. Assumimos todos isso. Queremo-nos fortes, sem medo de nada ou ninguém...
Colocarmos-nos numa situação de incerteza e fragilidade é algo que não vemos como valioso.
Confiar em alguém desconhecido nos pode ajudar é impensável nos nossos tempos.


A alegria que se gerou porque alguém nos deu uma caneta esferográfica foi surpreendente. 
Experimentar um sentimento de satisfação depois de um de despojamento foi, talvez, um dos pontos altos do retiro em Assis...


Caminhei até San Damiano, a famosa capela onde S. Francisco percebeu qual a sua missão e onde Santa Clara viveu depois até morrer.
Caminhei até lá sem mochila e material para desenhar, só com o caderno.
Quando lá cheguei, já todos tinham materiais para desenhar e estavam eufóricos.
Aproximei-me de um irmão franciscano e pedi-lhe uma caneta. Ele, atrapalhado, pediu-me para esperar e foi "lá dentro". Apareceu depois com uma daquelas esferográficas patrocinadas por uma empresa qualquer. Agradeci e disse-lhe que a devolvia no final.
Experimentei a caneta.
Falhava constantemente.
Também eu falho constantemente. Mais vale que o desenho mostre isso mesmo...

Perdi-me nas horas dentro da capela e desenhei apenas o sacrário (1.º desenho).

Aproximei-me do altar-mor para desenhar os frescos, mas foi o sacrário que voltou a ter destaque (2.º desenho).

No dormitório onde Santa Clara de Assis morreu, uma janela com degraus encadeou-me. Assistiu a tudo, ao longo deste séculos. Aponta lá para fora, degrau a degrau...

Saí, devolvi a caneta, não desenhei mais nessa manhã e tive o privilégio de não poder acrescentar mais nada a estas três páginas...

4 comentários:

Miguel Antunes disse...

Que exercicio incrivel!

Ao ler isto agora, acertou-me certeiramente. Tambem tive agora de pedir ajuda a um colega que nao `e dos mais solidarios... custou mas ainda bem que pedi ajuda


Vou tambem tentar ser mais simples nos desenhos que faco. Andamos sempre com tanta ansia de desenhar tudo o que vemos
"Less is more"

:)

Marcelo de Deus disse...

Lindo

Henrique Vogado disse...

Desenhos despojados de artifícios, tal como dizia este sábado o Salvador sobre a música dele no festival da Eurovisão.
Outro dia também me vi sem o material de escrita. Apenas uma caneta bic que falhava um pouco e foi muito frustrante querer desenhar e sentir um desconforto enorme. Depois de ler o teu post percebo melhor como deveremos olhar para essa situação. Quando voltar a ver o desenho, olharei de outra forma. Gosto muito desta viagem a Assis, no teu blogue. Abraço.

Mário Linhares disse...

Obrigado a todos!